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sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Plástico bolha, caos e catarse na escrita de Carvalho Neto




Reuni-me na inspiradora Biblioteca Luiz Neves Cotrim, do Museu Histórico de Jequié, com o amigo dos “Contos áridos”, Manoel Ribeiro, e seu colega na profissão de educador e na arte ficcional, Pedro Anselmo Carvalho Neto, a quem fui apresentado na ocasião. A fluidez da breve prosa daquela tarde nos deu logo a certeza de que fazemos parte de uma mesma confraria. Cordial, Pedro me trouxe o volume de cada um dos seus três rebentos literários: os romances “Casa pétrea de dois alpendres” (Editora Prismas) e “Plástico bolha”; e o livro de contos “No caminho de volta”. Os dois últimos, pela Nócego. Todos publicados em 2018.
Se Manoel Ribeiro me apresentou ao amigo Pedro Anselmo, as páginas surpreendentes de “Plástico bolha” me revelariam o ousado romancista Carvalho Neto. Autor inventivo na forma e na semântica, detentor de uma escrita tão vertiginosa quanto têm sido nossos tempos atuais. E é justamente sobre esse livro que cumpro aqui a difícil tarefa de separar a simpatia do criador das vísceras da sua criatura, na tentativa de um feedback responsável.
A tinta incisiva de Carvalho Neto, às vezes divertida, outras tantas melancólica, e quase sempre contundente, realça em “Plástico bolha”, sob a ótica do seu
protagonista, as feridas incômodas da contemporaneidade que tanto tentamos manter na invisibilidade, já que não sabemos lidar com elas.
Tão atormentado como o mundo ao seu redor é o relacionamento conflituoso que o dono de uma birosca dentro da movimentada rodoviária de uma cidade fictícia (semelhante a qualquer outra que conhecemos) nutre com as pessoas comuns/esquisitas com quem divide espaços públicos, vida íntima e a imaginação febril. Controverso, à primeira vista cínico e intolerante, o comerciante de cachaça e doces mantém afixado em seu comércio “Aqui se escreve carta”: serviço que oferece, de maneira... digamos... um tanto quanto peculiar. Geralmente sem letramento, os pobres clientes narram suas saudades, mazelas, segredos, planos e esperanças, sob as cruéis intervenções do prestador do nobre trabalho. Aliás, são recorrentes os explícitos manifestos de sinceridade do personagem central diante dos interlocutores; quando menos, as sarcásticas críticas na seara do seu pensamento fervilhante.
E a interação do protagonista sem nome com os demais personagens(quase todos sem nome também)é só a cara da moeda em turbilhão que se apresenta na leitura. A outra face,cunhada nas 258 páginas que passam voando, se desdobra no lado mais profundo do narrador: em sua mente atormentada cheia de estranhas manias e elucubrações sobre o mundo que o cerca, numa desesperada tentativa de esbarrar consigo nas ruelas do inconsciente. 
Na narrativa nervosa,em primeira pessoa, o (in)constante fluxo de (in)consciência intercala tempo presente e reminiscências, fatos e delírios. Entrelaça a cidade e seus anônimos transeuntes, os passageiros passivos nos ônibus, a vizinhança, a decadência das relações afetivas e o esquecimento dos asilados. Tudo é substância para compor o mosaico caótico da obra, como se fora a cidade um areal coadjuvante de um mundo por vezes surreal. “A cidade é hardcore(...)”,dá a dica o protagonista, já nas primeiras páginas,do que vem pela frente como um rolo compressor:“(...) é repleta de pessoas, de automóveis, de fumaça, de asfalto, de assalto, de barulho, e de cores”.
A cidade é hardcore porque o mundo é hardcore. Mas, também cabem nesse cenário perturbador o pop e o populacho, as extravagâncias da mass-media, o lirismoperanteo caos. Uma enxurrada de dicotomias permeia o peso da urbe e seus arrabaldes, o provinciano e o universal, as vísceras e o onírico. Nas constantes tensões entre o ying e o yang,surgem referências e intertextualidades diversas. Não seria de se estranhar, em meio a tantos símbolos estourados como as bolhinhas do plástico que nosso anti-herói carrega sempre consigo, que o autor transitasse, tal qual um iconoclasta,na “estação no inferno de cada um”, dialogando com Rimbaud, Byron, Baudelaire, Waly Salomão, Chacal, Leminski...
Armado de autoridade efêmera atrás do seu balcão, o protagonista sem nome, “homem que adoça e embriaga” seus clientes, vive a vender pequenas doses de vício e de ilusão, escrevendo cartas alheias, ao tempo em que tenta escrever a própria vida. É a busca incessante de um anônimo entre anônimos, capaz de imprimir no outro, arbitrária e invasivamente, seus afetos e desafetos cativos. A exemplo do cego e albino Balbino—único personagem da trama a possuir nome próprio; ou melhor, um codinome imaginado pelo personagem central — que, de modo estranho, se multiplica vertiginosamente em clones espalhados pelas entranhas da cidade.
Pontuados pelo que parece insensatez, incongruência, períodos quase sempre curtos se atropelam. Alternamo ritmo nervoso com momentos de puro lirismo, esses evidenciados principalmente nos capítulos intitulados “no tempo da poesia”.A ausência de letras maiúsculas na escrita inusitada parece gritar a insubordinação do protagonista às convenções do establishment, bem como realça sua insignificância diante da crueza da vida real e do delírio. A tinta releva excessos de trocadilhos,sem vergonha, culpa nem pedidos de desculpas. Também aliterações, inter genericidade e referências externas, as quais avalizam o perfil atormentado, sensível e criativo do protagonista. Mas nada disso é suficiente para fragilizar o enredo não-linear muito bem construído pelo autor consciente das normas que subverte em terreno intelectualmente pedregoso. O protagonista segue seu rumo incerto a nos arrastar —nós leitores— por uma bonita história tão absurda quanto verossímil.
“Plástico bolha” são alfinetadas no comodismo aninhado no sofá da sala de estar decadente do novíssimo mundo. São páginas povoadas por seres inomináveis que preferiríamos abandonar sob o tapete, se não corrêssemos o risco de sermos,nós mesmos, varridos para lá também. Gentes em convívio necessário perpassadas por sensações de atração e repulsão, por instintos imediatos que se alternam com reflexões transtornadas e planos ardis.Sob várias camadas de diálogos(e monólogos internos),linhas e entrelinhas abaixo do bem e do mal permeiam a opressão e o revanchismo, caridade e crueldade, medo e ódio... a solidão e a busca.
O vazio do afeto e da compreensão humana protagoniza essa saga (in)consciente rumo à catarse potencial na psique do personagem central, bem como na catarse possível da experiência de nós leitores por vias do desfecho surpreendente dessa bela e incômoda história,paradoxalmente estranha e comum, que bem poderia ser a nossa própria vida.

Por Júlio Lucas
(Poeta e cronista. Presidente da Academia de Letras de Jequié e Curador do Museu Histórico de Jequié)