sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Pesos e Medidas



Por: Paulo Rizzio de Abreu Filho


Houve um tempo em que para trafegar por uma rodovia no Brasil era necessário manter reservado, alí, bem guardadinho entre os documentos o “cafezinho” do policial rodoviário; se você não fosse dado a esse tipo de “bebida”, teria seu veículo no mínimo com um farol, uma lanterna estilhaçada, uma baita dor de cabeça e uma multa enorme. Hoje, na maioria dos casos, oferecer suborno, além de ofensa à honra do policial, pode lhe custar longos dias na cadeia.E, embora ainda exista demanda _ aquele que oferece e aquele que recebe _, começamos a entender que a mudança começa em cada um de nós, todos os dias, nas pequenas coisas. De nada adianta exigir honestidade dos políticos, conduta incorruptível e continuarmos com o velho jeitinho brasileiro.
Os velhos hábitos demandam novas posturas, devem ser abandonados dando lugar a consciência, a ética e a justiça. Verdade é que existe gente e gente, profissionais de todo o jeito. Não é incomum nos depararmos com denúncias de erros médicos; esquecem tesouras, pinças, agulhas dentro do paciente; pior que isso é a morte de uma jovem mãe que durante uma cesariana teve as alças do intestino cortadas. Todos os médicos são incompetentes e irresponsáveis? De modo algum. Inocentes são mortos em suas próprias casas por conta de balas perdidas, algumas delas saem do cano de armas de policiais, outros,confundem cidadãos de bem com bandidos. Guardas municipais despreparados em completo desequilíbrio emocional e racional espancam, matam, prendem pessoas inocentes. Agem todos da mesma forma? Medimos e pesamos todos com a mesma medida? Não mesmo.
Clérigos e pastores são acusados de abuso, de estrupo. São todos hereges, apóstatas, malfeitores?  Funcionário público é demitido do cargo por possível cometimento de infrações, de abandono e acúmulo ilegal do cargos, sendo obrigado a ressarcir ao erário os valores indevidamente recebidos. Têm todos a mesma conduta? Sargento da Aeronáutica é preso por tráfico de drogas, um outro, do Exército por desvio de armas. São todos traficantes? Políticos são denunciados e presos por corrupção, “rachadinha”, improbidade administrativa. São todos ladrões e desonestos? Até desembargadores e juízes são afastados dos cargos por suposto esquema de venda de sentenças e favorecimento de réus. Têm todos essa “flexibilidade” moral, de caráter, de postura? Decerto que não.
Falemos então de idoneidade, de rigidez de caráter, de competência, decência e comprometimento pois, direito tem, quem direito anda. Falemos dos inúmeros profissionais de saúde com suas exaustivascarga horária, muitas vezes dobradas em plantões pela necessidade de salvar vidas; desses mesmos profissionais dedicando-se ao trabalho em lugares remotos do nosso país. Falemos de homens e mulheres, militares ou guardas municipais que todos os dias expõem suas vidas pelo bem da sociedade; muitos deles jamais retornam aos seus lares. Grandes homens, padres e pastores que levam a palavra de Deus, lutam contra a injustiça, contra a imoralidade, sustentam a nação com suas preces, suas orações alimentando de fé e deesperança os fracos e oprimidos. Políticos têm suas vidas devastadas pela mentira, são caluniados, sofrem golpes mas apesar disso preferem a ética, a decência, não se corrompem, nem se locupletam do dinheiro alheio. Lutam pelo direito coletivo, pelo equilíbrio, liberdade e bom senso. Professores atravessam noites debruçados sobre pilhas de livros, provas para elaborar e corrigir, estudam, leem, dão ênfase à sua formação, se aperfeiçoam em benefício próprio e coletivo, muitas vezes em detrimento da própria família.
Julgaremos o livro pela capa? Todos são bandidos, imprestáveis, culpados? Existem bons e maus médicos, engenheiros, advogados, professores...  Não se julga o todo pelas partes, num cesto de laranjas pode haver algumas estragadas, isso no entanto, não caracteriza todo o cesto. Com o devido respeito à todas as demais profissões e, sem desmerecer nenhuma delas, ser professor é lutar contra aspectos de nossa própria história que estão convenientemente enraizados para benefício de alguns. Um país em que a educação não é vista como prioridade, em que investimento é despesa e que escolas são maquiadas e/ou abandonadas, em que os professores precisam tirar do próprio bolso material para inovar suas aulas, ou para os alunos e muitas vezes até para complementar a merenda escolar não pode ser considerado um país sério. Como então levaria à sério e respeitaria o professor?
Alcindo Ferreira Prado em Desafios da profissão diz que:
“refletir sobre a função do professor como um profissional da educação que contribui para uma transformação qualitativa da sociedade, há de se considerar a presença da responsabilidade político-social na docência, haja vista que, a formação do cidadão perpassa pela dimensão da formação política, pois esta propicia formar cidadãos críticos e transformadores.”
Percebe-se a grande responsabilidade que recai sobre o professor _ formar cidadãos _, responsabilidade esta, muitas vezes, acentuada por atitudes políticas contrárias, cristalizadas na sociedade. Sem escolas, sem formação, sem professores é mais fácil e prático manter os incultos na obscuridade, na ignorância, formar cidadãos críticos e transformadores é perigoso, melhor mantê-los na inercia, na ignorância, assim, desconhecem, não entendem, não refletem não cobram. “[Para criar um escravo satisfeito”, escreveu Bailey... é necessário criá-lo estúpido. É necessário obscurecer a sua visão moral e intelectual...”. “O sucesso dos tiranos reside na felicidade dos escravos com sua própria escravidão”. Melhor deixar a maioria pensarem que são livres pois hão de sentir menos o peso das correntes. Melhor é cupabilizar o professor pelo fracasso escolar, deixá-lo no rudimentar processo, sem infraestrutura decente, sem valorização, sem respeito, sem apoio, do que investir em valorização.
De fato, direitos tem, quem direito anda, negar essa premissa é ocultar a verdade. O que faremos então? Provocaremos o armagedom para sanitarizar o mundo? Responsabilizar os profissionais de educação para justificar a retirada da regência é no mínimo falta de bom senso, é desconhecer a lida, a prática diária do fazer pedagógico, é injusto. Equivale dizer que a culpa pelo desenfreado índice de criminalidade é da polícia, que a razão para tanta corrupção na política é culpa do povo que não sabe exercer sua cidadania...
Afirmar que a educação em Jequié não alcança o desempenho desejado é por conta do professor é prender-se a explicações rasas e tolas que só mascaram e ocultam o conjunto real de fatores que causam severos prejuízos ao processo educacional, apesar do empenho desses profissionais. Por último mas não por fim, aproprio-me com profundo respeito das palavras do grande educadorPaulo Freire em Pedagogia da Autonomia, São Paulo, Paz e Terra, 2011: “Não posso ser professor se não percebo cada vez melhor que, por não poder ser neutra, minha prática exige de mim uma definição. Uma tomada de posição. Decisão. Ruptura. Exige de mim que escolha entre isto e aquilo.Não posso ser professor a favor de quem quer que seja e a favor de não importa o quê.Não posso ser professor a favor simplesmente do homem ou da humanidade, frase de uma vaguidade demasiado contrastante com a concretude da prática educativa.
Sou professor a favor da decência contra o despudor, a favor da liberdade contra o autoritarismo, da autoridade contra a licenciosidade, da democracia contra a ditadura de direita ou de esquerda.Sou professor a favor da luta constante contra qualquer forma de discriminação, contra a dominação econômica dos indivíduos ou das classes sociais.Sou professor contra a ordem capitalista vigente que inventou esta aberração: a miséria na fartura.Sou professor a favor da esperança que me anima apesar de tudo. Sou professor contra o desengano que me consome e imobiliza.
Sou professor a favor da boniteza de minha própria prática, boniteza que dela some se não cuido do saber que devo ensinar, se não brigo por este saber, se não luto pelas condições materiais necessárias sem as quais meu corpo, descuidado, corre o risco de se amofinar e de já não ser o testemunho que deve ser de lutador pertinaz, que cansa mas não desiste. Boniteza que se esvai de minha prática se, cheio de mim mesmo, arrogante e desdenhoso dos alunos, não canso de me admirar.”